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PERGUNTA DA SEMANA: “De que forma você contribui para a cultura de paz?”

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Programação Mythus

Conferencistas do módulo:

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Conferencista

LIA DISKIN

Lia Diskin é Jornalista, especializada em Crítica Literária, pelo Instituto Superior de Periodismo José Hernandez, de Buenos Aires. É estudiosa da Cultura Indiana e especializou-se nos filósofos Nagarjuna e Kamala Shila. Estuda a Cultura Tibetana e é Conselheira para assuntos latino-americanos do Comitê Internacional Pró-Tibet (Washington, EUA). É responsável pelas visitas do Dalai Lama ao Brasil e à América do Sul. Recebeu da UNESCO o Diploma de Reconhecimento por suas atividades na área da Cultura de Paz durante as comemorações dos 60 anos da UNESCO, em junho de 2006. É co-fundadora da Associação Palas Athena — Centro de Estudos Filosóficos, Editora e Lar Assistencial-educacional e Escola de Educação de 1° Grau. Também é Consultora para instalar Conselhos Parlamentares de Cultura de Paz em várias cidades e municípios do Brasil e é tradutora e editora de mais de 40 livros sobre mitos e símbolos na Arte e na Cultura da Índia.

Conferência

Valores que não tem preço: promovendo a cultura de paz no cotidiano
Cobertura da palestra

Dia 28/08 | 19h | Local: Arte Sesc

A reflexão sobre Cultura de Paz está inserida num contexto que retrata a falta de contornos claros para os valores que arquitetaram nossa cultura nos últimos séculos. Apesar do nosso acúmulo de conhecimentos, ainda não estabelecemos vínculos saudáveis e sustentáveis, tanto no plano inter-pessoal, quanto em relação ao planeta, cujos recursos naturais são finitos. Uma mudança orientada para um repertório de valores capazes de exaltar a vida; respeitar as diferenças como fonte de riqueza; priorizar a convivência fortalecendo vínculos de confiabilidade mútua; minimizar o impacto sobre a natureza; promover a fruição dos bens culturais e materiais conquistados; partilhar possibilidades e responsabilidades; está acima de interesses particulares ou de grupos. Abordaremos metodologias e ações de Gandhi, Martin Luther King e Mandela, entre outros.

Entrevista

Como analisa as diferentes abordagens sobre paz no ocidente e no oriente? De que forma o sistema de crenças religiosas interfere nisso?

É a partir da década de 1960 que o Ocidente passou a estudar as condições que favorecem a manutenção da paz e as que a fragilizam ou dificultam. Desse modo, iniciaram-se as investigações antropológicas e históricas associadas à paz, que revelaram uma profundidade que sequer se imaginava. Por exemplo, a violência tem um mínimo de 5 rostos: a física, que é verificável e passível de quantificação; a simbólica, que trabalha com conteúdos subjetivos e suas múltiplas reações frente ao medo; a cultural, que carrega crenças e costumes preconceituosos que se perpetuam através da educação e do convívio diário; a estrutural, que permeia as instituições de uma determinada comunidade e cria procedimentos de mobilidade social injustos e humilhantes; por último, a violência estatal, que pode inviabilizar o desenvolvimento e criatividade de um povo, reduzindo-o a orientar suas energias apenas para a sobrevivência. Nesse sentido, Ocidente e Oriente não apresentam grandes diferenças. O que merece destaque é o fato do oriental receber uma influência marcada pelas vias espirituais, convidando-o a cultivar a paz, isto é, a alimentar pensamentos, sentimentos e ações vocacionados a criar uma atmosfera de harmonia, convivência e parceria.

Por que a humanidade demorou tantos séculos para começar a refletir sobre uma efetiva Cultura de Paz?

Penso que se deva ao fato de agora termos nos tornado perigosos demais para nós mesmos e os outros seres vivos com quem partilhamos o planeta. Quando você sabe que as potências nucleares possuem instrumentos para destruir o planeta várias vezes, a única conclusão possível é que precisamos, com urgência, revisitar as prioridades e o repertório de valores que alicerçam nossa cultura. Autoritarismo, controle, abuso de poder, intimidação, sigilo, consumo como meio de ostentação e manipulação são alguns dos mecanismos usados em culturas de dominação – desnecessário dizer que a nossa se enquadra nesse tipo. O problema é que o futuro simplesmente desaparece como projeto de vida, tudo se torna compulsivamente instantâneo, sem maiores responsabilidades sobre as conseqüências das escolhas e dos atos. Riane Eisler, cientista social de singular perspicácia, contrapõe a estas culturas de dominação as culturas de parceria, que existiram no curso da história, obviamente em menor número, e que hoje despontam como via saudável para equilibrar as forças em ação.

E o que estaria desviando o foco de atenção de conflitos e intolerâncias? Seria o aumento da espiritualidade ou uma escassez de recursos?

Seria interessante resignificar o conceito de conflito. Este é necessário, e há evidências de que os relacionamentos que o envolvem são democráticos. A unanimidade e o consenso não são naturais e, na maioria das vezes, são produto das ditaduras, do autoritarismo, do terrorismo emocional. Também é bom lembrar que internamente vivemos em conflito: “faço isto ou faço aquilo?”; “vou hoje ou amanhã?”; “tomo posição ou me calo?” etc.

Qual o maior legado de pacifistas como Gandhi, Martin Luther King, Mandela e Dalai Lama?

Seu maior legado é que as mudanças individuais e coletivas são possíveis. Todos eles transformaram as dinâmicas sociais do cenário onde atuaram, a comunidade, o país e a cultura a que pertenciam não foram mais as mesmas após a influência que exerceram dentro delas. Todos eles também revelaram a necessidade de uma disciplina interna de pacificação sobre a qual puderam se firmar nos momentos de turbulência. Uma espécie de fonte nutritiva da qual extraíram inspiração renovada. Suas lutas e conquistas encorajaram milhares de ativistas, e ainda o fazem, nos mais diferentes espaços do saber e do fazer humanos – as mudanças estão acontecendo e, a despeito de guerras que teimam em se reproduzir, hoje estamos muito mais sensíveis às injustiças, à dor e à exploração.